segunda-feira, 29 de junho de 2015

Os Latinos

Gênese histórica de um povo Indo-Europeu


Cristiano De Mari

“Em 21 de abril , todos os anos comemora-se o dia da Latinidade; a conjuntura de povos latinos pelo seu modo  peculiar de manifestar a cultura e de ser em sociedade.“

             

 Fig.1.Acima. Marte seduzindo Reia Sílvia. Os romanos antigos acreditavam serem descendentes do deus da Guerra Marte (Ares para os gregos), devido à lenda que gerou Rômulo e Remo e pelo seu caráter extremamente aguerrido ante outros povos.




                                Fig.2. ao lado: Rômulo e  Remo abrigados por Fáustulo.                                                                                                                                                                                                                                                                     
1- INTRODUÇÃO
  
1.1 Panorama étnico Indo-Europeu


 Dentre todos os povos que formaram a etnia substancial da Europa, os latinos estavam no meio das grandes ondas migratórias que começaram na Era do Bronze inicial e médio em 2200 e 2000 a.C. De início, porém comentaremos com brevidade sobre a ancestralidade étnica dos latinos em relação aos povos que os originaram, os Indo-Europeus. Estes em épocas mais remotas migraram do Cáucaso à região da atual Ucrânia habitando ai por milhares de anos formando um povo coeso no final do período Mesolítico em 5000 a.C.
As raízes étnicas dos Indo-europeus , os quais se incluem os povos divididos em: arianos, célticos, germânicos, eslavos, italiotas, e dentro destes em especial os latinos do artigo proposto remontam ao período Mesolítico. Tais comunidades indo-europeias viviam em sistemas tribais paternalistas ora maternalistas, muito atrelados à natureza, seus ciclos, estações do ano, astronomia, ao campo , à domesticação de animais como o cavalo, a estratificação social organizada por seus chefes, classe de sacerdotes, druidas ou sábios, evidenciando-se em muitas constatações a crença monoteísta em um ser supremo, chamado de Dyaus Pitar, literalmente traduzido por Deus Pai (Zeus-em grego, Iovis Pater/Júpiter no latim). Após alguns milênios de imigrações, houve o contato com diversos povos autóctones que já ocupavam a Europa há muito tempo. Eram os Lígures, Etruscos, Pelasgos , o primitivo povo basco; entre outros de origem incerta ainda, talvez canaanitas,  que ocupavam todo norte da África e posteriormente o sul da Europa mediterrânea. Desse modo ao misturar-se começaram a praticar o politeísmo inspirado nestes povos autóctones, transformando sua religião em mitologias, manismos , animismos, politeísmos antropomórficos, panteísmos e formas variadas de paganismo.
 Segundo o historiador espanhol Bosch-Gimpera , está historicamente atestado que a partir do segundo milênio antes da era cristã, os indo-europeus deixaram uma longa história para trás que começa no Mesolítico:

“Cerca de 8.000 a.C. – Geipel ressalta –, as geleiras escandinavas finalmente se retiram para o norte. As Ilhas Britânicas são separadas do continente. O Báltico une-se com o Mar do Norte. A tundra dá lugar às florestas de coníferas. A Europa passa a ter um clima temperado.”

“A partir do segundo Neolítico, os grupos indo-europeus já são semi-sedentários. Os homens dedicam-se à pecuária, as mulheres e os jovens praticam uma agricultura rudimentar. Esse novo tipo de economia sucede a outro modo de vida: o dos grandes caçadores, que praticam o nomadismo sobre territórios muito extensos e cujos membros são agrupados de acordo com a idade. O resultado é uma explosão demográfica que causaria uma transformação completa da vida social.” (Alain De Benoist, 2014)



                                         Fig. 3. Rômulo transporta rico espólio para o templo de Júpiter.

Toda história da antiga Europa foi construída em torno de duas grandes ondas migratórias. A primeira situa-se entre 2200 e 2000 antes de nossa era. Dela procedem as sociedades irânicas e védicas na Índia, descendentes dos arianos, o Império Hitita e os reinos da planície da Anatólia como os Lídios e Frígios, as civilizações históricas dos gregos e romanos, celtas e germânicos. À oeste, os indo-europeus ocupam a Península Ibérica, a Gália, as Ilhas Britânicas e Escandinávia. Ao sul, de acordo com a cronologia tradicional, as ilhas mediterrâneas, a Grécia e Península Itálica, e a leste, adentraram um pouco mais tarde os eslavos , na região hoje chamada de Leste Europeu, e um ramo de povos indo-europeus (tocarianos) foram parar além das fronteiras chinesas, deixando um pouco de sua influência nos reinos do norte do país, quanto aos termos linguísticos.
Baseados também em considerações de tradição bíblica estas formações de povos e migrações ganham grande respaldo não só da ciência arqueológica, mas de antigos estudiosos judeus e cristãos , que colocam a origem dos indo-europeus e sua linhagem original advinda de um antigo patriarca bíblico, Jafet, terceiro filho de Noé. Jafet teria sido o progenitor de toda nação ariana ou indo-europeia. Escritos como por exemplo do historiador judeu-romano Flávio Josefo , mencionam este fato grandemente comentado no meio religioso.A partir deste pensamento teriam sido desta forma classificados e divididos os grupos humanos do pós- dilúvio (+-10000 a.C.), época em que começa o Neolítico:

Os três filhos de Noé, segundo a tabela das nações de Gênesis capítulo 10:

SEM: patriarca progenitor dos povos de origem semita, do oriente e leste sudeste asiático. Seriam os antigos Assírios, Persas, Medos, Acádios, Arameus, Babilônios, Heteus, Hebreus, Hicsos, entre outros, mais chineses, japoneses, mongóis no geral. Estes últimos podem ter sofrido uma mistura racial vinda da Europa. A genética dos povos indígenas americanos comprova sua origem associada aos povos do sudeste asiático, por isso mongólicos.
CAM: patriarca progenitor dos Cananitas da antiga Palestina e do mar Mediterrâneo, povos africanos em sua maioria e tribos berberes do norte da África. Também povos de tez escura da Ásia e Oceania, sumérios, indianos, povos mauria, povos dravídicos, negros aborígenes australianos, etc...Influenciaram também a formação de povos do sudeste asiático.
JAFET: patriarca progenitor dos povos de origem ariana ou indo-europeia. Suas migrações pela Europa partiram do Cáucaso, Ucrânia e posteriormente Ásia Menor. Antigamente representados por gregos, romanos, celtas, gauleses, germânicos, bretões, anglos, eslavos, hititas, etc...Hoje formam os atuais países europeus mais a Rússia na parte asiática, Ucrânia, algumas maiorias populacionais do Cazaquistão, Uzbequistão e arredores. Também contribuíram na formação do povo americano, nas sucessivas ondas migratórias dos conquistadores espanhóis e portugueses e povoadores ingleses.


2 – Os Itálicos

As primeiras tribos itálicas teriam aparecido no Vale do Rio Pó no início do II milênio.Dentre elas estavam os sabinos, úmbrios, oscos, volscos, picenos, lucanos, vestinos, marsios, marrucinos, liburnos, frentanos, faliscos, érnicos, équos, ausônios, auruncos, vênetos e latinos. Vindos de além dos Alpes, da planície danubiana e anteriormente da Ásia Menor, fixaram-se ao longo dos rios e dos lagos da Itália do nordeste, ali vivendo em aldeias de palafitas. Passam depois a terra firme, nas regiões a sul do Pó. Os restos das suas aldeias foram chamados “terramare” (dos termos latinos terra e mare; obtendo também o sentido de “terra gorda”, formada com os restos orgânicos desses povoados).
A técnica romana de construção dos acampamentos apresenta características comuns com a “planta” destas aldeias: o fosso, a cerca defensiva, a disposição perpendicular das ruas, segundo os pontos cardeais. Devido à cremação dos seus mortos, são considerados, por alguns, como antepassados distantes dos latinos (e dos faliscos e sículos, mas, quanto a estes dois últimos povos, apenas pelas afinidades dos respectivos idiomas com o latim).
A segunda onda migratória de povos itálicos, etnicamente aparentados aos primeiros pela sua afinidade linguística, irá aparecer na península itálica no final do II milênio (por volta de 1200-1100 a.C.).
São considerados pela maioria dos autores contemporâneos os antepassados dos povos que se estabeleceram em regiões montanhosas dos Apeninos (úmbrios, picentinos do sul, sabinos, samnitas e lucanos), e que agora costuma-se denominá-los por sabélios (os sabelos eram uma pequena tribo vizinha dos sabinos; o termo latino Sabelli servia aos romanos para designar quer os sabinos, quer os sabelos) ou úmbrio-oscos , quando o mais correto seria chamar-lhes úmbrio-samnitas. 
É possível que parte dos antigos habitantes das regiões que ocuparam tenha se fundido com esta segunda onda de migrações. Outros terão sido repelidos para regiões menos hospitaleiras, sendo certo que os lígures apenas se mantiveram na zona noroeste dos Apeninos, os sículos apenas na Sicília.




3 - A gênese latina

Fala-se muito dos romanos, do Império, desta grande cultura irradiada pelo mundo, do latim, etc... mas pouco se conhece do povo que a originou: os latinos. Quer dizer, existe em abundância assuntos sobre os latinos, porém já entendidos como romanos, depois que estes desenvolveram uma grande potência cultural, política, econômica, o Império Romano. Sendo assim o objetivo é trazer um pouco à tona eventos proto-históricos da vida, caminhos, costumes dos antigos latinos na composição original de sua formação étnica.
Os Latinos foram um antigo povo itálico de origens indo-europeias, historicamente atestadas pelas suas migrações em torno do II milênio a.C., estabelecendo-se ao longo da costa tirrênica (Mar Tirreno)  da Península Itálica, na região que hoje atende pelo nome de Lácio de onde corre e desemboca o Rio Tibre.
Politicamente divididos, os latinos compartilhavam mesma língua e cultura. Deram uma contribuição determinante ao povo de Roma, cidade que no curso do I milênio a.C., teve do mesmo modo uma língua e cultura latina que influenciou mais tarde grande parte da Europa. Por esta razão o termo “ latino” é por vezes empregado como sinônimo de “romano”.


3.1 - O Território do Latium Vetus (Lácio Antigo)

A região do Lácio se localiza na Itália Central onde a cidade de  Roma foi fundada em 753 a.C. crescendo até tornar-se capital do Império Romano. Originalmente, o Lácio compreendia um pequeno triângulo de solo vulcânico fértil no qual residiam tribos latinas. Estava situada na margem esquerda do rio Tibre, estendendo-se para norte em direção ao rio Ânio (afluente do Tibre) e para sul em direção aos Pântanos Pontinos (Pomptina Palus).
A margem direita do Tibre era ocupada pela cidade etrusca de Veios, e as demais fronteiras do Lácio eram povoadas por outras tribos itálicas. Durante o Reino e República, Roma derrotou Veios e então seus vizinhos itálicos, expandindo o Lácio aos Montes Apeninos ao norte e para a extremidade oposta do pântano no sudeste. A região moderna do Lácio é um pouco maior que o Lácio romano.
Segundo a tradição romana, a área originária de estabelecimento do povo foi a zona das colinas albanas, da qual os latinos se difundem sucessivamente pelas planícies circundantes. Em todo caso, a partir da primeira expansão romana e do surgimento do seu estado em torno do VI século a.C., este território compreendia uma área de 2000 Km², correpondendo a um pouco mais da décima parte da atual região do Lácio.
Em 1988 foi descoberta a primeira cinta murada de Roma datável em 725 a.C. , identificadas também nas cidades de Prenestre e Tibur, os dois máximos centros, depois de Roma, do mundo latino.

3.2 - As tradições histórico-literárias (mitológicas)

     Na obra (Teogonia,1011-1013) de Hesíodo , Latino, na mitologia romana, é rei do Lácio, filho de Fauno (também chamado Lupércio), pai de Lavínia e esposo de Amata. É o herói  do povo latino, que habitava na península Itálica central, e parece ser um personagem fictício, inventado pelos historiadores e poetas.
As tradições divergem muito sobre a sua genealogia. Há duas variantes sobre a sua origem, uma grega e outra romana. Para Hesíodo, Latino é filho de Ulisses e de Circe, o que o torna irmão de Ágrio e Telégono. Alguns afirmam que Latino não era filho, mas neto de Ulisses, portanto filho de Telêmaco e Circe.
Outros autores, como Higino , o consideram filho de Telégono e Penélope. Para Dionísio de Halicarnasso, é filho de Hércules.
Na Eneida, Latino é apresentado como filho de Fauno, neto de Pico e da ninfa Canente e descendente de Saturno, rei-deus da idade de ouro. Virgílio parece ter inovado ao dar a Latino, como pai, o deus local Fauno e como mãe, Marica, ninfa venerada à beira do rio Liris, perto do Minturno.
Para exaltar o Império Romano, e em particular Augusto, Virgílio conta que Latino acolheu Eneias, que fugia de Troia e aportou no litoral do Lácio atual. Para firmar uma aliança com o herói troiano ofereceu-lhe a mão de sua filha Lavínia. A jovem, porém, já estava prometida como esposa para Turno, príncipe local. Esta foi, segundo a Eneida, uma das causas que desencadeou a guerra entre os povos do Lácio e os troianos.
Os primeiros a estabelecer uma conexão bem precisa desta região (Lácio) a uma cidade da Ásia Menor , chamada Troia foram dois escritores gregos do século V a.C., Ellanico de Lesbo e Damaste de Sigeo. Outro em um século mais tarde, o siciliano Timeu di Tauromenio, faz menção das origens troianas encontradas em um santuário de Lavinium, uma cidade sagrada da região do Lácio.
Segundo as opiniões dos historiadores antigos, e do máximo poeta épico romano, depois da morte do rei Latino e de Eneias, a população autóctone teria se fundido aos troianos fugidos dando origem ao povo latino.
A tradição lendária mais famosa, de Virgílio fala que o troiano Eneias levando consigo seu pai Anquises e seu filho Ascânio, fugiram da destruição imposta à Troia pelos gregos, ficaram a vagar sem rumo, aportando na região do Lácio, na Itália central. Lá se fixou junto ao Tibre e casou-se com a filha do rei da região, chamado Latino.

                                                                                       Fig. 4. Eneias e os reis latinos.
Seus descendentes ganharam essa denominação e passaram a reinar em Alba Longa, cidade fundada por Ascânio. Após a morte de Sívio Procas, descendente de Ascânio, seu filho Numitor, primogênito e herdeiro do trono por direito, foi deposto por seu irmão Amúlio, que o prendeu. Para assegurar o trono para seus descendentes, Amúlio prepara uma emboscada para seu sobrinho, matando-o. Ainda não contente com o resultado, coloca sua sobrinha, Reia Sílvia, num colégio de sacerdotisas de Vesta, deusa do fogo, sendo então conduzida a uma condição de castidade. Porém Reia , ao ir buscar água para um sacrifício no bosque sagrado, junto ao Tibre, foi seduzida por Marte, deus da guerra. Ficou grávida , deu à luz um par de gêmeos, os famosos Rômulo e Remo.
Como Amúlio queria manter o trono, quando soube do acontecido com a sobrinha, prendeu-a e ordenou que os meninos fossem abandonados em uma cesta e foi lançada ao Rio Tibre. Mas , em vez de irem para o mar, os bebês foram parar numa figueira sagrada do monte Palatino, uma das sete colinas de Roma. Os dois foram salvos por uma loba enviada por seu pai Marte, que os amamentou e protegeu junto às suas crias.
Foi um pastor de nome Fáustulo quem os encontrou, levando-os para criar e educar. Deu a eles seus nomes e entregou-os à sua esposa Larência.
Mais tarde quando crescido, Rômulo mata o usurpador do trono e recoloca seu avô Numitor de volta no lugar e este agradecido manda que os dois irmãos fundem uma nova cidade, que se chamará Roma.
Para identificarem o local exato disso, os irmãos consultaram os presságios e foram para locais diferentes.Remo foi para o monte Aventino e Rômulo ficou no Palatino.Como os augúrios diziam que Rômulo seria o favorecido, ele traçou ao redor do Palatino um sulco circular, que demarcava o pomerium (edifício sagrado da cidade), com uma carroça puxada por dois bois brancos. O sulco era como um poço , mas não totalmente fechado. Remo , enciumado por causa que Rômulo havia sido o escolhido, ridicularizou o irmão dizendo que a cidade ficaria desprotegida sem as muralhas de proteção.Rômulo enfurecido , matou-o a golpes de espada.Remo foi enterrado no Aventino e Rômulo arrependido chorou muito, mas o pior já havia sido feito.A eterna rivalidade destes dois bairros da Roma antiga foi desencadeada por esta desavença.
Depois de fundá-la em 753 a.C., Rômulo pensou em povoá-la.Porém faltavam mulheres.Sendo assim os habitantes da nova cidade raptaram todas de um povo vizinho , os sabinos. Tito Tácio, em retaliação atacou Roma, contudo as mulheres conseguiram promover a paz entre as duas cidades promovendo um acordo de paz.Rômulo e Tito Tácio reinaram de forma conjunta e as populações se misturaram.Após a morte de Tito Tácio , Rômulo volta a reinar sozinho por mais 33 anos. Segundo o pesquisador Sérgio Pereira Couto, 2007, ao falar de Rômulo :

“Ele criou o Senado, a primeira legião do exército e a divisão de classes entre patrícios e plebeus.Um dia quando revisava as tropas, houve uma tempestade forte seguida de um eclipse solar. Segundo a lenda, quando tudo passou, Rômulo havia sumido. Mais tarde, foi revelado que o monarca havia sido levado aos céus para viver entre os deuses com o nome de Quirino, originariamente um deus sabino."

Muitos historiadores analisam esta história como uma tentativa dos romanos de associarem suas origens aos deuses, mas muitos também crêem que a lenda traz alguns fatos reais transformados em epopeia. A arqueologia confirmou em suas pesquisas alguns desses fatos, como por exemplo, a época mencionada da fundação da cidade.”


                                                                                                   Fig.5. Eneias derrota Turno

4-Hipóteses Modernas segundo a Historiografia e Arqueologia

Os latinos migraram para a Itália no curso do II milênio a.C., provenientes talvez da Europa central danubiana, ou segundo a historiografia greco-romana, da Ásia Menor hoje Turquia. Contudo essa imigração teria acontecido aos poucos até enfim se estabelecerem. Faziam parte de um grande grupo de povos denominados italiotas de origem caucasiana os quais em ondas sucessivas foram entrando na Península Itálica e aos poucos se estabelecendo e entrando em contato com os Etruscos e Gregos que lá viviam há muito tempo.
Depois de algum tempo, os italiotas dividiram-se em diversos grupos como os latinos (que deram origem ao povo romano), samnitas, úmbrios, lucanos, sabinos, oscos, volscos, équos e vênetos. Entretanto esses povos ainda não tinham uma civilização desenvolvida, eram bárbaros e foram civilizados pelos etruscos e gregos da Magna Grécia.
A migração latina teria acontecido por via terrestre, seguindo o percurso natural dos Apeninos, do norte para o sul, seguindo pela direção ocidental da península.
Objeto de grande debate é o lugar de assentamento do povo latino assim como a idade em que teria ocorrido a chegada da migração para a atual região do Lácio. A arqueologia releva o fato que na Idade do Bronze tardio o território ao sul de Tevere apresenta características de uma cultura latina, procedente da cultura villanoviana (cultura de urnas da Europa central) que tornou uniforme a área Tirrênica da Toscana e do Lácio entre os séculos 12 e 10 a.C., sobrepondo-se à cultura apenínica que dominava a região nos séculos precedentes. Junto à cultura do lácio vem associada a formação da etnia latina que ao findar do II milênio a.C., era já constituído por uma série de comunidades (mencionadas por Plínio , o velho) que tinham como centro principal a cidade antiga de Alba Longa. O historiador N. Diakov afirmava que no Lácio:

“Anteriormente ao estabelecimento dos latinos, a “cultura dos Apeninos” se caracterizaria por trabalhos de drenagem, muralhas ciclópicas e cerâmica decorada semelhante à dos micênicos, insinuando assim uma provável presença grega nessa região. No entanto aqueles trabalhos (mais de recolha de águas pluviais que de drenagem) e muralhas datarão de épocas bem mais posteriores (após o ano 1000 antes da era), com os latinos (e outros povos da época histórica) já fixados no país, não se podendo pois considerar como traços característicos do Latium nos tempos da “cultura dos Apeninos”. (Jorge Almeida, 2015)

Está historicamente acertado que uma população, diferente daquela que habitava ali anteriormente, teria chegado no Lácio em época proto-histórica. Tal povo, considerando-se a origem linguistica e uma série de vestígios arqueológicos, foram identificados como latinos. Praticavam rituais de incineração de corpos em suas tumbas ao passo que os rituais das culturas que os precederam utilizavam apenas rituais de inumação em tumbas. Os primeiros túmulos que comprovam que houve um novo rito de sepultamento foram encontrados em torno do século 10 a.C. na zona das colinas Albanas(Colli Albani), ao sul da atual Grottaferrata para depois difundir-se por outras partes do Lácio e Roma.
Por cerca do ano 1000 a.C., o uso do ferro faz a sua aparição na Itália. É o que se denomina a Primeira Idade do Ferro, apesar de ainda predominar a metalurgia do bronze.
Em 1853, próximo de Bolonha, na localidade de Villanova (daí o nome de “civilização vilanoviana” para esta cultura), são encontrados os primeiros objetos de ferro e um vasto monumento funerário de sepulturas individuais contendo urnas de um tipo particular (com incineração do cadáver), a que se chamou “bicônicas”. Esta cultura apressadamente se espalhou pela Etrúria, Lácio, Campânia, “transportada” por itálicos que avançavam cada vez mais para sul. As casas familiares são circulares, feitas de toras, com as paredes revestidas de argila e lama. São habitações próprias de uma sociedade de famílias que detêm as suas explorações particulares. Tesouros fúnebres, se bem que ainda modestos, revelam um início de diferenciação na riqueza possuída por algumas destas famílias. Peças de cerâmica grega, vidrilhos e marfins fenícios aí encontrados atestam relações de troca com esses povos.
Na primeira fase da Idade do Ferro, a forma de povoamento dos latinos se caracterizava por  uma série de agrupamentos rurais e pastoris autônomos, ao centro com uma vila fortificada (Oppidum) estreitamente organizados entre eles através de federações ou ligas. As origens, a genealogia e os cultos em comum, induziam a muitas destas entidades/comunidades a buscarem uma identidade única e coesa. Segundo Ana Maria Liberati e Fábio Bourbon:
“No século VIII a.C. , o Lácio era ocupado por um grupo de pastores e agricultores, o latino instalado nas planícies e nas regiões costeiras da comarca em várias aldeias independentes, mas unidas por seus ritos e abertas às influências culturais exercidas pelos etruscos e os gregos assentados nas regiões limítrofes.”(Liberati e Bourbom, 2008)
Por terem um caráter originariamente religioso, com o tempo passaram a se organizar social e mutuamente para questões comuns como a defesa do território, o comércio e outros assuntos de interesses gerais. A liga Albana (Alba Longa – colinas Albanas) foi talvez a mais antiga entre as federações latinas do Latium Vetus (Lácio Velho). O coração deste amplo agrupamento urbano era a cidade de Alba Longa que se destacava às demais cidades latinas. Outra dessas aldeias depois evoluída para cidade, Roma, tinha se colocado em posição ideal para o intercâmbio comercial, próxima ao Tibre e em um ponto no qual era possível atravessar o rio sem dificuldade. Roma era governada por um rei, e ainda antes  do domínio etrusco alcançou um desenvolvimento que a distinguiria das demais comunidades latinas.
De acordo com a data convencional proposta pelo estudioso Marco Terêncio Varrão da época de César, Rômulo cria o senado e aumenta a população recebendo grupos sabinos, na lendária história do pacto com os sabinos, após estes últimos terem suas mulheres raptadas pelos latinos romanos. Numa Pompílio teria organizado a vida religiosa, o culto, os colégios de sacerdotes e reformou o calendário, dividindo o ano em 12 meses; Túlio Hostílio ( 673 – 642 a.C.) destruiu a cidade rival de Alba Longa, aumentando o domínio de Roma; Anco Márcio (641 – 617 a.C.) favoreceu a construção da primeira ponte sobre o Tibre e fundou a colônia de Óstia, na foz do rio dando para Roma uma saída para o Mar. No final do século VII começou o domínio etrusco, que se expandiu do Lácio até a Campânia. A tradição registra três reis etruscos: Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio, e Tarquínio o Soberbo. A derrubada de Tarquínio, o Soberbo em 509 a.C., marcou o fim da próspera era etrusca declinante surgindo no lugar um regime político de patrícios de origens latinas. Muitas crises internas se seguiram entre plebeus e patrícios levando Roma de uma Monarquia a uma República com vocações expansionistas culminando com o império orquestrado por César em 44 a.C. tornando-se realidade  com Otávio Augusto seu sobrinho.
A genealogia dos reis latinos a seguir foi baseada em Tito Lívio e Dionísio de Halicarnasso:

Latino, rei dos "Aborígenes", que deu seu nome para o novo Estado latino, sendo governado a partir de Laurentum por Eneias e sua própria filha Lavínia, dada em casamento com Eneias.

Eneias, um nobre troiano que liderou uma força que abandonou Troia durante seu colapso. Listado como o primeiro rei latino tanto por Lívio e Dionísio. Ele governou de Lavínio.

Ascânio, um filho de Eneias e sua esposa troiana Creúsa. Fundador de Alba Longa. Governou durante 38 anos (1179-1141 a.C.).

Sílvio, um filho de Eneias com Lavínia, jovem meio-irmão de Ascânio. Reinou por 29 anos (1141-1112 a.C.).

Eneias Sílvio, um filho de Sílvio. Reinou por 31 anos (1112-1081 a.C.).

Latino Sílvio, possivelmente um filho de Eneias Sílvio. Reinou por 51 anos (1081-1030 a.C.).

Alba, possivelmente um filho de Latino Sílvio. Reinou por 39 anos (1030-991 a.C.).

Átis (em Lívio), ou Capetus (em Dionísio). Possivelmente um filho de Alba. Reinou por 26 anos (991-965 a.C.).

Cápis, possivelmente um filho de Capetus. Reinou por 28 anos (965-937 a.C.).

Capetus Sílvio ou Calpetus. Possivelmente um filho de Cápis. Reinou por 13 anos (937-924 a.C.).

Tiberino Sílvio, possivelmente um filho de Capetus Sílvio. Reinou por 8 anos (924-916 a.C.). Alegadamente morto em batalha perto do rio Albula e seu corpo foi levado. O rio foi rebatizado de Tibre.

Agripa, possivelmente um filho de Tiberino. Reinou por 41 anos (916-875 a.C.).

Rômulo Sílvio (em Lívio), ou Aládio (em Dionísio). Possivelmente um filho de Agripa. Reinou por 19 anos (875-856 a.C.). Alegadamente um tirano e désdem dos Deuses. Ele assustava as pessoas, lançando-as aos raios, até que ele mesmo foi assassinado por um, e sua casa submersa no Lago Albano.

Aventino, possivelmente um filho de Aládio. Reinou por 37 anos (856-819 a.C.). O Monte Aventino teria sido batizado em sua homenagem.

Procas ou Proca. Possivelmente um filho de Aventino. Reinou por 23 anos (819-796 a.C.).

Amúlio, um jovem filho de Procas que teria usurpado o trono. Reinou por 42 anos (796-754 a.C.). Assassinado por seus sobrinhos-neto Rômulo e Remo.

Numitor, o irmão mais velho de Amúlio. Consta que ele o sucedeu um ano antes da fundação de Roma. Seu sucessor não foi nomeado, mas deve ter havido um, e ele deve ter sido da mesma dinastia, como Caio Cluilío, último rei de Alba Longa, descendente de Eneias, morreu de causas naturais, enquanto estava no campo de batalha durante o cerco de Roma sob a realeza de Túlio Hostílio.

Rômulo, primeiro rei de Roma, reinou em Roma. Filho de Reia Sílvia, filha de Numitor.


5 - A “diáspora” latina

Em recorrência aos poucos artigos e textos publicados em português, falando dos primitivos latinos e respectivamente sobre suas origens; senti a necessidade de expor por escrito uma pesquisa sobre este povo brilhante e magnífico; suas origens; sua aurora histórica no seio da mãe Europa. Portanto resgatar um pouco da ancestralidade deste povo  tornou-se algo bem interessante. Você e eu , que possuímos sobrenomes de origem latina (no italiano, espanhol, português , francês e romeno)  poderemos nos sentir lisonjeados de carregarmos em nosso sangue a sagacidade épica de um povo que não quis ser mero espectador, tampouco coadjuvante, mas sim criou uma civilização arrojada, sabendo se apropriar e desenvolver uma cultura digna de reconhecimento perante as nações do mundo.
Não só falando do Império Romano, mas também da Europa Românica que compreende os países que se originaram no decorrer dos séculos à queda do Império Romano do Ocidente em 476. Seriam os atuais países de Portugal, Espanha, França, Itália, Romênia, Andorra, San Marino e Mônaco. Todos estes falam línguas latinas, ou seja, derivadas do latim vulgar antigo, falado pelos soldados romanos.
Após a invasão bárbara germânica, houve miscigenações, mas não a ponto de enterrar a cultura latina, os costumes, a tradição, a religiosidade cristã, etc. Muitas coisas foram aproveitadas e adequadas à nova fase histórica que viria a ser o Medievo. Foi no Medievo que algumas das nações europeias surgiram primeiramente como a Inglaterra (germânica) e França (franco-latina), depois também Portugal e Espanha (latinos) que aos poucos expulsaram os árabes da Península Ibérica, culminando com a conquista de Granada em 1492.
Os latino-americanos são descendentes de povos latinos europeus, especialmente portugueses e espanhois, misturados aos povos indígenas que aqui já viviam , recebendo depois influência racial dos negros africanos trazidos como escravos. Mais tarde no século XIX  e  XX, a América recebeu imigrações europeias de italianos, espanhóis, alemães e eslavos e por último de imigrantes asiáticos, completando a miscigenação. Portanto o substrato racial do México à Terra do Fogo foi predominantemente influenciado pelo elemento humano e cultural latino em grandes proporções e assimilada e integrada às culturas indígenas e africanas.

Fig.6. Eneias fugindo de Troia carregando seu pai Anquises.

Fig.7. Os gêmeos Rômulo e Remo sendo amamentados pela famosa loba.

   Fig.8. A intervenção das sabinas. Faltavam mulheres em Roma, e a sua população, exclusivamente masculina, corria o risco de se extinguir. Então Rômulo preparou uma armadilha: convidou os vizinhos Sabinos para uma festa. Estes trouxeram as suas filhas. De repente, a um sinal de Rômulo, os seus companheiros lançaram-se sobre as sabinas e raptaram-nas. Os Sabinos, furiosos, entraram em guerra contra os Romanos. Mas, entretanto, as Sabinas começaram a amar os Romanos que se tornaram seus esposos, e quando, de cima das muralhas de Roma, viram que os seus maridos e pais se preparavam para se matarem uns aos outros, colocaram-se sobre os combatentes para os separarem. Reconciliados, doravante, os dois povos viveram juntos em Roma, duplicando a população da nova cidade. Esta lenda serviu de inspiração a muitos artistas.



    Fig.9.Urna funerária de terracota datada do século VIII a.C. encontrada no Lácio. Sua forma seria uma representação  artística das habitações do período pré-romano.
Fig.10. A região do Lácio em vermelho, núcleo original dos latinos.

6- Referências:

           A civilização Romana. Cornell, Tim, Mattews, John. Coleção Grandes Civilizações do Passado. Editora Folio, S/A, edição brasileira, Rambla de Catalunã, Espanha 2008.

A Roma Antiga. Liberati, Ana Maria; Bourbon Fabio. Coleção Grandes Civilizações do Passado. Editora Folio, S/A, edição brasileira, Rambla de Catalunã, Espanha 2008.

A história Secreta de Roma. Couto, Sérgio Pereira. Editora Universo dos Livros, São Paulo, 2007.
História da Civilização. Oliveira, Plínio Correia. Disponível em: < http://www.pliniocorreadeoliveira.info/BIO_1936_Pre_Universit%C3%A1rio_09.htm> 2015.

    
O mundo dos Indo-Europeus. De Benoist, Alan. Disponível em:< http://legio-victrix.blogspot.com.br/2013/12/o-mundo-dos-indo-europeus.html >2014.


             Ab Urbe Condita , Tito Livio , libri I-V., Dionigi di Alicarnasso, Antiguidades Romanas., Plínio ,Naturalis Historia.

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